Thursday, May 24, 2012

Behemoth - "Lucifer" (dica musical do FG Louco)


LILITH

Eu sou aquela que estava aqui desde o princípio. Já me deram muitos nomes. Serpente,bacante,Salome ou Madalena.Outras vezes Morgana,bruxa,feiticeira,vaca profana,luxúria, blasfêmia ou heresia. Sou a tentação que evitam em vão. 
 Sou a própria condição humana e, ao mesmo tempo, fã dela. Sou a mãe, a filha, a esposa ou a amante, adúltera, virgem ou santa prostituta. Sou a que gera, mas também aborta. Sou o maldito fruto do ventre proibido e impuro. Meu nome é Lilith, mas poderia ser qualquer outro.

devota ou derrota 
   da castidade?
sadomasoquismo devoto

pra que calcinha, cinta-liga e sex shop?
quando se tem cristo seminu,
chicoteado, 
crucificado,
em plena missa,
distribuído 
em pedacinhos 
e tudo isso
regado a vinho...

(fg louco)

Sunday, April 29, 2012

F. García Louco - A sorrateira e derradeira continuação!

García recusava-se a pronunciar o nome do carpinteiro, o que levou-o a chamá-lo apenas pelo suposto e inusitado heterônimo. Uma forma de dar-lhe vida e existência, pelo simples fato de falar dele.
- "Judas Iscariotes"... resmungou entre os dentes o García, ainda incrédulo com as revelações, enquanto cada um recebia as cinco cartas da próxima rodada.
As idéias se embaralhavam mais do que as cartas, sem tomar sentido, sem "formar um jogo". Ele jogou alto para estar ali, naquela cripta.Abandonou tudo por aquela viagem, por aquela entrevista. E agora, Judas nunca existira.
A traição, idem.
Mas havia algum segredo naquela "santa" mesa.
Algo estranho. Algo que parecia mais estranho que o próprio "four" de ases que ele acabara de receber de mão.
O anfitrião dera as cartas,olhando-o nos olhos, em tom de desafio. García ergueu suas cartas, sem esboçar reação alguma.
O olhar do nazareno o espreitava, aguardando qualquer deslize, qualquer fenestra, um soslaio que denunciasse o teor das cartas que arrecadara. Nada. Despido de mímica e soterrado por um disfarce catatônico, García escondia-se da tensão que os cercava como malha de arame farpado.
As fichas amontoavam-se ao centro da mesa.

O "four" de ases veio pronto. E bastou ao FGL o artifício de trocar uma carta, apenas uma carta, o suficiente para disfarçar a excelente condição.
O nazareno suspirou, reprisando o olhar já dispensado antes.
Todos entreolharam-se.
- Tô fora! disse Pedro, desanimado.
- Eu também, mestre, disse João.
- Quem vai dentre vós? perguntou o carpinteiro de Nazaré.
- Eu vou, mestre, respondeu Tomé.
- E tu, García? estendeu-se a indagação.
- Sim, respondeu o louco, monossilábico.

x.x.x.

Bartolomeu alisou a barba, trocando o copo por um punhado de fichas e apostou em silêncio.
Tomé voltou-se para ele e desafiou: - Pago pra ver! Duvido do que tens aí! Só acredito vendo!
Todos riram. Tomé tinha fama de incrédulo.
Bartolomeu resumiu-se em um riso discreto, comparado aos demais.
O nazareno estendeu a mão ao centro da mesa e dobrou a aposta, multiplicando as fichas, como um "milagre ". Agora todos o olhavam desconfiados, pois ele não havia trocado uma carta sequer.
- Mestre, estás a blefar? perguntou o intrigado Bartolomeu, rompendo o divino silêncio.
O anfitrião guardava o piedoso olhar que o García tanto odiava.
- Em verdade, em verdade vos digo,trago o sinal dos tempos... Estou com um "royal straight flush", de mão, argumentou o nazareno, como se pregasse aos presentes.
García o fuzilava com o olhar, com o mesmo sincero desejo que sempre teve de fuzilá-lo realmente.
- Pago pra ver, "mestre"... disse o FGL, enquanto arrastava todas as suas fichas de encontro ao monte das apostas. Agora mostra o que escondes, mostra o teu "royal straight flush" de mão, ó coitadinho de Nazaré! Quem sabe não fizeste o milagre da multiplicação dos "ases"... Pois os quatro estão aqui na minha mão!
- Vamos, mestre, acaba com esse convidado ingrato, gritou João, perdendo a calma.
E o nazareno precisou ser amparado pelos discípulos enquanto revelava o punhado de cartas. As mesmas estampavam apenas um discreto par de nove.
A eloquência da mesa evaporou-se, transformada em afasia coletiva.Silêncio.
O García sentiu-se um soldado romano com o destino do nazareno nas próprias mãos, tinha um four de ases,"quatro cavaleiros do apocalipse" galopando, galopando, prestes a  passar por cima do rei deposto. O 'rei dos reis' estava nu, com um par de nove e um blefe ridículo, prestes a ser desmascarado. Enfim, Nietzsche triunfava. E deus estava morto.

x.x.x.

O blefe do carpinteiro era a metáfora que faltava para a sequência daquele jogo. O messias blefava. E quantas vezes mais teria blefado em seus sermões, sem que alguém "pagasse para ver"?
Quantas vidas foram arrastadas como fichas de jogo por aquele dilúvio de blefes e intimidações chamado "religião"?


O nazareno não conseguia disfarçar a inquietação, García não escondia a satisfação por isso.
Um copo de vinho na mão e o punhado de cartas na outra, o FGL disparou:
- Um brinde ao nazareno!
Sob espanto, todos o seguiram, exceto o anfitrião.
- Tomai e bebei, sentenciou ironicamente o García.
O nazareno petrificado na sua cadeira mirava as cartas nas mãos do adversário.


x.x.x.

Nas paredes úmidas da cripta, as sombras projetadas pelas silhuetas pareciam estáticas,uma pintura rupestre em cavernas paleolíticas. Uma pausa congelava a tela, como um defeito de projeção.
A penumbra absorvia o pouco de cor que havia e suavemente decaía em tom sépia. Naquele instante era possível ouvir o ronco do velho Lênin no mausoléu, um andar acima.
Alguém bateu à porta, o que roubou a atenção de todos. Mas não roubou o olhar do García que buscava intimidar o anfitrião.
- Abra a porta, Pedro, disse o nazareno, cochichando com o guardador de chaves.
- Sim, mestre, disse Pedro, atendendo-o prontamente.
A pequena porta que dava passagem às escadas se abriu.
Ao fundo, e distante da mesa, um vulto adentrou a cripta.
- Quem é, Pedro? perguntou o nazareno, em voz alta, mas com o olhar fixo e mais preocupado com as cartas do jogo do García.
- Sou eu, respondeu Maria Madalena, aproximando-se da mesa, saindo da vasta penumbra, completamente úmida pela chuva que não cessava há três dias e três noites.
García soltou as cartas num súbito, surpreso pela visita inusitada e, rendendo-se, deixou seu olhar a sós com ela.
Madalena, sempre quase nua, transparente pelo banho de chuva, aproximou-se do García, alvejada por todos os olhares masculinos presentes e sentou-se no colo dele.
- Já que não guardam lugar às mulheres nessa mesa, tenho que buscar meu espaço, disse ela, enquanto suas roupas escorriam seu cheiro dissolvido na umidade, formando uma pequena poça debaixo da mesa.
O nazareno assustado era sentinela das cartas. O García, não mais.
O calor do abraço da noite escura da Praça Vermelha soprava novamente, agora sobre seu colo. O amor da vida do nazareno estava em seus braços.
- E então, estás com sorte no jogo? perguntou ela sorrindo.
García apenas pegou-a forte pela cintura e mostrou-lhe suas cartas.
Ambos riram.

x.x.x.

García segurava as cartas como uma arma prestes a disparar, quando a porta da cripta foi aberta.
Alguém que tinha as chaves acabara de entrar. O intruso não precisara bater, sequer se anunciou. E ficou ali, parado na penumbra, silente, junto à soleira, fora do alcance da visão de todos.
- Esperávamos por mais alguém, Pedro? interrogou o anfitrião àquele que tinha o controle das chaves da porta. No entanto teve como réplica a negação de Pedro.
- Tens certeza? insistiu.
- Absoluta, mestre, confirmou o ex-pescador.
Um vento frio dava rasantes por debaixo da porta,fazendo bailar as chamas das velas e os tênues restos de uma teia de aranha, ancorada ao lustre.
Um calafrio tomou atalho pela espinha do nazareno, fazendo-o suspirar e sentir-se intimidado pela presença do intruso. Então, ele levantou-se e dirigiu a palavra ao canto onde o estranho invasor guardava-se.
 O visitante permanecia escorado à porta, porém quase impossível descrevê-lo. A escuridão não concedia.
- Qual é o teu nome? gritou o nazareno, com a voz trêmula.
-"Meu nome é 'Legião', porque somos muitos",respondeu ele.
E o mesmo calafrio espalhou-se pela espinha de todos, sem fazer atalhos.
O estrangeiro riu e acendeu um cigarro que trazia no bolso do casaco.
- De onde vens? perguntou-lhe o nazareno.
E o estranho continuou a provocar.
- "De rodear a Terra e passear por ela", como dizia o mestre.
- Estás a zombar de mim, estrangeiro, saia daqui, eu te ordeno! disse tomado pela ira o nazareno.
O intruso seguia absolutamente comovido nas trevas litorâneas da cripta.
- O que queres aqui? bradou o nazareno,possuído pelo quarto pecado capital.
- Calma, mestre! Vim apenas buscar aquilo que me deves, não olvides da tua dívida comigo, disse o estrangeiro ao irromper da escuridão  e ser banhado pelo olhar de todos.
- Judas Iscariotes, exclamou João Evangelista.
- Judas Iscariotes, seguiram-lhe em brado os demais apóstolos.
O espanto e o pavor tomaram  de assalto a face do anfitrião, como se tivesse sido lançado em um desfiladeiro e nem todo o exército de arcanjos seria capaz de ampará-lo.
Sentiu-se mais fraco que um andarilho em quarentena no deserto.
- Vocês não o mataram? gritou o nazareno, sentindo sobre sua cabeça o lancinante peso de uma coroa de espinhos.
- Sim, mestre, nós o entregamos em teu lugar para o exército romano, explicava-se João,desesperadamente, confirmado pelos demais. Mas Pedro negou. Disse que não sabia de nada.
- Nós o entregamos para ser crucificado no teu lugar! tentava justificar-se Bartolomeu.
- Pai, afasta de mim esse cálice,suplicou de joelhos o nazareno, com as mãos à cabeça,olhando para cima, lavado pela angústia.
-Eu não vou acreditar nem mais no que vejo, repetia Tomé, desconsolado, sentando-se no chão sobre um pequeno tapete marroquino, baforando reflexivo o seu narguile.
O intruso provocou o anfitrião mais uma vez:
- Vai ver eu ressuscitei,não é? disparou Judas, seguido por uma rajada de gargalhadas do García Louco.
Madalena tomou a taça de vinho da mão do FGL,com aquela cumplicidade que nasce tornando as palavras obsoletas, enquanto ele reclinara-se na cadeira, em silencioso entusiasmo, tal qual um espectador diante do gran finale do "Lago dos Cisnes".
- Ai, ai, viu... se soubessem da missa a metade, suspirou Madalena, deixando a marca do seu lábio tinto de batom na taça do García.
- Não tenho dívidas contigo! retrucou o nazareno, sem mirá-lo nos olhos.
- Dívida de jogo é sagrada, mestre!
- O que deves a ele? intrometeu-se a curiosa Maria Madalena.
O nazareno permaneceu calado com o olhar pendendo ao chão.

x.x.x.

Apenas aqueles treze antigos parceiros de pôquer sabiam o que tinha ocorrido naquela longínqua páscoa judaica, em território palestino, há dois mil anos.
Na fatídica noite da última reunião, Judas sentara-se com a sorte em seu colo e estava ganhando todas as rodadas. O carpinteiro não recebia bem a derrota e insistia em apostar, mais e mais.
Volta e meia olhava para o céu e dizia "pai, pai por que me abandonaste?", mas na próxima rodada, outra leva perdida.
Arruinado, perdeu seus últimos cobres,um saco de dez moedas, quando pelo entusiasmo da posse de uma sequência, apostou tudo o que lhe restara. Judas surpreendeu-o com um "four" de valetes!
Os últimos grãos de areia da ampulheta esvaíam-se.
Judas já guardava o saco de moedas que ganhara honestamente,mas eis que o nazareno, entusiasmado pelo vinho, voltou à mesa e disse ao Iscariotes "uma última rodada, valendo tudo!", dando um tapa sobre a mesa.
Todos riram-se demoradamente, pois ao nazareno não restara nem as sandálias, perdidas em um dos arriscados blefes.
Judas disse-lhe "e o que apostarias, mestre, por acaso o teu trono?" 
O nazareno escorava-se nos ombros de Pedro e Bartolomeu.
Após alguns segundos, retomou o fôlego e respondeu "aposto tudo que tenho, Madalena." "Fechado", concordou Judas sem hesitar.

x.x.x.

Até o mais ignorante dos beduínos ou desavisado dos pastores de ovelhas das colinas do Golan sabia que Madalena não pertencia ao carpinteiro. Aliás, não pertencia a ninguém. Maria Madalena era Lilith em pessoa. Não seria nunca propriedade de homem algum.
Se perdesse a aposta, o arruinado nativo de Belém não teria como honrá-la.O Iscariotes sabia disso, mesmo assim topou arriscar, talvez ganhasse mais que somente uma aposta.
A mesa encheu-se novamente e todos retomaram seus assentos. Uma nova rodada de vinho foi servida, agora por conta de Judas.
João embaralhou e deu as cartas. O nazareno as benzeu com um sinal da cruz, antes de pegá-las, cerrou os olhos e abriu-as lentamente diante de si, escondendo a face.
- E então, mestre? arguiu o Iscariotes.
O croupier João Evangelista os observava, assessorado pelos demais.
- Troco três, disse o anfitrião, entregando as cartas.
- Nada, disse o Judas, lacônico, erguendo a mão esquerda em negativa.
Na mesa, postas as fichas do Iscariotes, formando um monte quase tão alto quanto o Sinai. A aposta do anfitrião não estava ali. Devia estar a rodear e passear pela terra, quem sabe?
O croupier trapaceara a favor do mestre, aproveitando-se do movimento da troca e passar de cartas. Uma trinca de "reis magos" foi enviada de presente ao encurralado desafiante, como uma benção divina.
Judas não se importava, apreciava a cena, o desespero e as trapaças do perdedor.
- Então, mestre? manifestou-se João.
O nazareno soluçou e baixou seu jogo, sem cerimônias.
- Santíssima Trindade de reis! gritou Pedro, em tom de euforia, saudado por palmas.
O Judas fechou os olhos e baixou a cabeça.
E tu?, interrogava Bartolomeu o oponente, transbordando em ansiedade e vinho.
O Iscariotes baixou três cartas, segurando outras duas.
-Trinca de seis! gritaram todos, pulando de alegria e beijando o mestre, supostamente vencedor.
Todos o beijaram, menos o adversário, que seguia sentado com as duas cartas restantes na mão.
- Aqui há sabedoria, disse o Judas apontando a trinca de seis. E aquele que sabe, calcule, porque o número do homem é o número seiscentos e sessenta e seis...
E prosseguiu.
- Sabem que a minha trinca de nada serviria sem este par de damas? E baixou uma dama de copa e uma dama de espada.
A última, a de espada, é a Salome seduzindo e decapitando o teu Batista; já a primeira, de copa, te consome em dúvidas, devastando e derretendo o teu coração, Madalena! A casa está cheia... É um "full house", meu mestre trapaceiro. 
As cartas e as palavras açoitavam o nazareno, impondo-lhe mais amarguras que o vinagre ofertado como água a um sendento.
Só lhe restavam lágrimas no monte das oliveiras.
Enquanto falava o vencedor, revelando o poder de suas cartas, João Evangelista reincidiu em ardiloso subterfúgio de trapaça, substituindo a taça de vinho de Judas por outra. A nova com conteúdo especial, sementes de mandrágora.
Lucas, o sírio, era médico e conhecedor, portanto,  dessa planta e seus efeitos narcóticos.
O Iscariotes retomou o fôlego e bebeu uma generosa dose da bebida batizada, caindo ao solo inconsciente, como se chegasse à exaustão. Todos correram para vê-lo de perto, desmoronado ao pé da mesa. O saco de moedas da aposta escapara de sua mão, espalhando todo seu dinheiro. O nazareno catou-as, uma a uma, em silêncio, como se colhesse lírios no campo.
- Será que Ele morreu? perguntou João.
- Creio que sim, a dose era muita forte, respondeu o apóstolo médico.
- Tomara,mas vamos esperar... intrometeu-se o desconfiado Tomé.

x.x.x.

Dormiram ali, ao redor da mesa. O Iscariotes permanecia inerte, sendo velado pelos amigos traidores. Acordaram-se sob os gritos dos soldados romanos.
Havia uma denúncia.
Todos ergueram-se, menos o nazareno, que já não estava lá e o inebriado Judas que seguia perdido no distante mundo de Hipnos e Morfeu.
- Recebemos denúncia de que há alguém aqui que se diz "rei" e quer ameaçar o imperador de Roma, pregando rebeliões e prometendo o céu, bradou o centurião.
- Deve haver algum engano, senhor, aqui nos reunimos apenas para jogar, disse Pedro.
- E este aí, por que não levantou? arguiu a escolta, apontando para o Iscariotes.
- Ele é o "líder", ainda não acordou porque bebeu muito vinho, explicou João.
Os guardas vasculharam tudo e não acharam pistas, nem qualquer evidência, mas precisavam justificar a patrulha.
- Prendam o líder subversivo! ordenou aquele que os comandava.
- Você estava junto ? perguntaram a Pedro.
Mas ele negou.
Judas foi então o único levado às masmorras,inconsciente,ainda sob o efeito da mandrágora.

x.x.x.x.x

O sol já tocava o zênite do céu do oriente.
Os mercadores cochilavam sob as sombrias pilastras do templo, escondidos da febre do mormaço do meio-dia. Os andrajos salpicados de pulgas e suor. A páscoa era vindoura.
A poucas vielas dali, detido e jogado no calabouço, o prisioneiro Judas perambulava pelos vastos corredores da alucinação em que fora arremessado, dissolvido na infusão da erva maquiavélica.
O labirinto dos sonhos o despejou no deserto, sem identidade, sem bagagem, um peregrino enfrentando as tempestades de areia do Egito.
Exausto, faminto e alvejado por vento, areia e delírios, ele avistou  um oásis, nele a imagem de uma mulher deitada à beira de um regato, na calmaria sedutora da luz púrpura do crepúsculo.
As pernas do nômade discutiam com seus olhos. A hipnótica miragem na linha do horizonte, tão perto e tão distante, cobrava altos impostos ao seu físico já tão consumido. Os olhos e a alma mesmo assim insistiam,a contravento da razão.
- A travessia da tempestade de areia valeria tantas recompensas quanto as brumas de Avalon? Uma Morgana o aguardaria alhures?
As pernas bambas e exauridas estremeceram como um arvoredo em vendaval.
- No deserto nem tudo que se vê é miragem, disse a mulher, com voz rouca, completamente nua, sem esboçar qualquer timidez, enquanto repousava os pés imersos nas águas cálidas do regato, sentada apoiando as mãos sobre a areia branca do oásis.
Os cabelos longos e negros como o mar do Cáucaso cobriam-lhe os ombros e os seios, tal como um véu que ora esconde, ora revela. Entre as pernas, o sexo exposto, um atentado ao pudor, de muito bom gosto. 

x.x.x.x.x
O beduíno tuaregue Iscariotes desfez-se dos panos e turbantes que serviam-lhe de escudo na batalha contra a fúria do deserto. Enxugou a fronte úmida e áspera pela tempestade, ajoelhando-se lentamente, como se fora rezar a prece obrigatória. Não reconhecera a própria imagem que se projetava no espelho d´água. O vento lhe furtara a memória, agora espalhada por ventos alísios do delírio alucinógeno na direção do Saara. Lavou-se, buscando a água com as mãos em concha, tentando estornar a lucidez. A imagem da mulher seria apenas mais uma alucinação dentro de outra que já experimentava.
Ele cedeu à tentação e mergulhou por inteiro na água, saciando o corpo que suplicava por um banho. A transparência líquida lhe concedia ver que os pés dela permaneciam lá, submersos. Sentia inclusive seu cheiro na água.
No fundo do lago permaneceu atônito por alguns segundos, quando veio à tona, já quase sem fôlego e tocou-a nos pés, sentindo que eram reais. Emergiu buscando ar renovado e deparou-se com a mulher sorrindo, sentada onde a avistara antes. Ele a segurava pelos pés, como se não tivesse a intenção de mais soltá-los.
- Eu não falei? "No deserto, nem tudo que se vê é miragem", sussurrou ela novamente, então já sob o manto escuro da noite, o qual lembrava um véu de odalisca, cheio de detalhes e brilhos, com constelações caleidoscópicas cintilando sobre a imensidão desértica. 
Estrelas cadentes brincavam como vagalumes no escuro, enquanto a lua parecendo magoada, minguava por uma fresta de nuvem passageira.
- Quem és? perguntou ele, intrigado.
Ela não escondeu um certo ar de desdém e respondeu com outra interrogação:
- Não é demasiado estranho a pergunta partir justamente de alguém que perdeu tudo, da memória à própria identidade?
Ele sorriu em rendição a tanta astúcia da parte dela e implorou:
- Então me digas, por favor, afinal quem sou eu?
- Tu és o que foi traído e entregue para morrer.
A resposta veio em tom solene e o derrubou.
Ele engoliu as palavras, sentindo a boca seca e amarga.
- Te aprisionaram e logo morrerás na cruz. Morrerás no lugar daquele que, ao raiar do terceiro dia, reaparecerá blefando "ressurreição". Assim,o nome dele será santo pelo teu sangue derramado e usurpado para a fundação de um engodo chamado "religião"!
- Então, Judas é o meu nome, refletia o viajante em silêncio, tentando despertar da viagem psicotrópica.
- Sim, respondeu a mulher, como se ouvisse seus pensamentos.
- Agora permite-me saber quem sois? indagou ele, em tom de incerteza, resistindo aos desafios de sua nudez frontal, traçada em vales e montes de um relevo tentador. 
- Eu sou aquela que estava aqui desde o princípio. Já me deram muitos nomes. Serpente,bacante,Salome ou Madalena.Outras vezes Morgana,bruxa,vaca profana, feiticeira,luxúria, blasfêmia ou heresia. Sou a tentação que evitam em vão. 
Ele tinha as certezas do solitário marinheiro mediterrâneo encantado por formosas sereias. Ela o abraçou com as pernas, tentáculos irresistíveis, trazendo-o junto de si, fazendo-o tocar e sentir seu sexo.
- Sou a própria condição humana e, ao mesmo tempo, fã dela. Sou a mãe, a filha, a esposa ou a amante, adúltera, virgem ou santa prostituta. Sou a que gera, mas também aborta. Sou o maldito fruto do ventre proibido e impuro. Meu nome é Lilith, mas poderia ser qualquer outro.
 Ele sentia como se os dedos tocassem acordes de alaúde numa tenda saudita em noite de festa e os olhos dela brilhavam acendendo fogueiras.
Lilith contorcia-se em ritmo crescente, até que um gemido  escapou-lhe dos lábios e o ventre se contraiu como um arauto para anunciar o orgasmo que irrompia. A tênue areia branca vazava-lhe pelas mãos fechadas em espasmo,esmagando o tempo, reduzido-o a um mero filtrado no vidro da ampulheta. 

x.x.x.x.x 

Aos poucos a miragem se desfez. O despertar do fascinante e inesperado encontro com Lilith o reconduzia ao confinamento da prisão.
Mal acordou e a escuridão do calabouço foi ferida na face por esparsos e agudos golpes de raios de luz. Um forte clarão tomou de assalto seus olhos de pupilas dilatadas pela mandrágora. Diante de si um borrão de silhueta confusa.
A porta moveu-se e os guardas entraram para buscá-lo. Lembrou-se então do que a  mulher havia lhe revelado no deserto. O nazareno fugiria e o deixaria entregue à morte em seu lugar.
Ergueu-se pelas mãos de terceiros. E saiu da cela apenas porque a força alheia o conduzia apoiado pelos ombros. Um julgamento o aguardava.

x.x.x.x.x

Judas, ainda inebriado e bastante cansado daquela epopéia lilithiana, fora levado a Pilatos, que o aguardava com grande expectativa.
- Quem és? perguntou Pilatos.
- Aquele que foi traído e entregue para morrer, disse o prisioneiro.
- Acaso te achas um mártir, um messias? inquiriu o governador da Judéia.
- Eu fui traído e entregue para morrer crucificado, repetia o Judas, relembrando as palavras de Lilith no deserto.
- Esquece isso, rapaz, eu sei que isso é idéia da tua mãe, aquela louca que diz que tu és filho de um anjo e vieste como  um messias.
Os sacerdotes observavam aquele diálogo e cochichavam.
- Em verdade, em verdade vos digo, eu andei pelo deserto e tive a revelação de tudo o que acontecerá! recitava o Judas em pregação aos presentes.
- Que ideia fixa. Para de falar essas bobagens por aí e eu te liberto, disse Pôncio Pilatos.
O Judas mal esperou o governador terminar a proposta e sentenciou novamente:
- Meu sangue será derramado para a nova aliança, fui traído e morrerei na cruz para a salvação da humanidade!
Os sacerdotes reagiam com olhares de reprovação, acompanhados pelo governador. Este ainda buscou uma última saída, oferecer a libertação do suposto culpado.
Pilatos então perdeu a paciência e foi lavar as mãos.

x.x.x.x.x

Judas condenado. Outro caso de erro de julgamento ameaçava a dúbia reputação judiciária . Um inocente seria executado, no rol de um processo sem provas. O nazareno fugiu para um esconderijo ao norte, enquanto seus apóstolos perambulavam disfarçados em meio à multidão para confirmar o traiçoeiro destino do Iscariotes.









Uma freira que se preza...


"cordeiro de deus" que colocais os pecados na nossa cabeça!


O Exterminador do Futuro e o Nazareno! Vídeo de cabeceira do F.García Louco!


Entre tapas e beijos...



"As cartas na mesa, as apostas feitas...
Numa mesa de pôquer, alguém poderia
ser crucificado por blefar?"
(Judas, o Iscariotes)

Friday, April 20, 2012

F. García Louco Entrevista - Derradeiro Final

Viciado em jogo e especialista em enigmas, García brincou com as peças do "quebra-cabeças" da matrioshka. Depois despediu-se das noites bálticas em um bordel de Saint Petersburg, onde já fora a sede do partido comunista.
Praça... Multidão... Rússia... Tudo o levava à Praça Vermelha em Moscou!
Fez as malas na manhã seguinte e partiu da estação Leningradisky rumo à capital.
Sequer fez questão do assento.Caminhava para lá e para cá, andava pelos corredores do antigo vagão, ansioso pelo derradeiro encontro com o símbolo anticristão.
Não poderia negar que houvera tempos melhores para visitar a velha capital. "Os malditos clericais não tinham vida fácil. A religião era o ópio do povo! Mas parece que houve uma  'crise de abstinência' e tudo voltou a ser como antes..." debochava ele, em conversas de bar.
Antes de desembarcar ainda lembrou-se das palavras do bilhete. 
A luz do dia já era extinta e a escuridão da noite moscovita só era contestada pelo brilho dos refletores e holofotes do Kremlim. A plêiade cosmopolita de turistas seguia perene, guiada por seus cicerones e vigiada sob o olhar paranóico dos guardas palacianos.
Rajadas de vento passavam pelo rio ao fundo e vazavam pelo estreito vão entre a Catedral de São Basílio e a torre do relógio,torturando ainda mais a sensação térmica.
F. G. Louco atento observava qualquer detalhe diferente na movimentação da massa, até que uma voz familiar chamou-o pelo nome, gritando ao longe. Uma voz feminina. 
 - García, García, gritava, cada vez mais próxima.
 - Madalena! exclamou ele, surpreso quando a reconheceu.
- Recebeu o meu 'presentinho'? Gostou? disse a amiga sorrindo, enquanto abraçava-o.
- Então eras tu no hotel?, disse ele, pegando-a pela cintura.
- Lógico! Não temos um trato? respondeu,buscando proteger-se do frio sob os braços dele. E seguiram andando.
- Esse frio todo e você não se rende, quase nua... provocou ele.
Uma gargalhada de ambos ressoou pelos muros dos palácios à volta.
- E o Iscariotes? Ele vem? perguntou o FGL, sem esconder a ansiedade. 
- Ele já está aqui, viajamos juntos.
-  Ele viajou contigo? Como assim? espantou-se, interrompendo o passo e voltando-se para ela.Silêncio.

O início súbito da chuva distraiu-os e antecipou-se à resposta de Maria Madalena.Os visitantes corriam em busca de abrigo.
Os dois permaneciam parados na Praça Vermelha, a poucos passos do mausoléu de Lênin.
A chuva aumentava a cada segundo, mas ambos seguiam inertes, como se fossem estátuas no meio daquele panteão soviético. 
O rosto dela iluminou-se como um relâmpago. 
- Estás com ciúme, por acaso? desafiou.
 Nem a chuva dissimulava a inquietação de García. 
Ele preferiu esquivar-se, voltando-se para o busto de Lênin,que os assistia com olhar fixo.


x.x.x.x.x


- A idéia de "traição" não era um sentimento demasiado "cristão" para ti que tanto buscas por Judas? disparou ela.
- Ou a espera tem se tornado um "calvário", uma "cruz deveras pesada para ti"? completou, sem mudar o tom da voz, sempre suave e irônico.

García achava-se encurralado pelas palavras de Madalena.
Fuzilado pelas costas, sentia a verdade brotar e encharcar as roupas como sangue.
A chuva ameaçou trégua; Madalena, não...
- Achas que encontrar o Iscariotes é tarefa qualquer, como falar com o coitado do Caim ou trepar com aquela dançarina? disse elevando a voz, pela primeira vez.
- Estás com ciúme, por acaso? perguntou o FGL, virando-se em direção a ela, planejando uma fuga daquela conversa que se tornava uma inquisição.
A chuva pôs transparência às  poucas vestes usadas por ela.E o García arrependeu-se profundamente por tê-la evitado no olhar durante o duro interrogatório.
Aproximou-se e agarrou-a firme pela cintura, sentindo que ela se arrepiava pelas frias roupas molhadas e pelo toque das mãos dele.
Uma mulher como ela não sentiria frisson à toa. E ele sabia disso.
-Estás arrepiada, vou te emprestar o meu casaco, não está tão molhado, falou enquanto desfazia-se do sobretudo.
- Não quero, obrigada. Prefiro ficar assim, disse agarrando-o novamente. Quero teu abraço, não o casaco. Já está quase na hora, ele deve estar chegando... concluiu reclinando a cabeça sobre o peito dele. Os olhos parecendo tâmaras maduras cerraram-se lentamente.
Quase adormeceu ali mesmo, de pé,colada ao corpo dele, como se estivessem no mais confortável dos aposentos. 
O silêncio foi suspenso. A torre do relógio soou pela praça vazia.Nas dobras do tempo, a  terceira hora da manhã.
- Que horas são? ela perguntou, sem abrir os olhos.
- Três horas! A hora do anticristo, como rezam as lendas, sussurrou no ouvido dela.
- Agora viraste supersticioso? falou ela, bem baixinho, como se ainda não tivesse bem acordada.
- Não, não acredito nisso. Apenas literatura. O livro das mentiras diz que o nazareno morreu às três da tarde, então a hora do anticristo, por provocação do "Opositor", seria a equivalente. Mas tu sabes melhor que eu do que se passou com o nazareno.
Ela não o contestou.

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- "Espero por ti na praça. Saberás quem sou em meio à multidão!", lembras? disse Maria Madalena.
- Lembro, respondeu ele, apertando-a junto de si, sentindo aproximar-se a despedida.
- Já trouxe os dois até aqui. Agora preciso ir!
- Acaso não podes ficar? insistiu ele.
- Não. A conversa será entre vocês dois. A entrevista é importante para ti, mas não há nada que eu já não saiba.
Não esquece o nosso trato. Vou cobrar, viu? e o sorriso malicioso reaparecia como fruta da estação no extremo oriente dos lábios dela. - Beijo, disse ela, sem realmente beijá-lo,aliás como sempre fazia.
F. García Louco sentou-se no chão molhado da praça, guardando na memória o perfume de romã de Madalena,na companhia das poças d´água que a chuva deixara espalhadas como cicatrizes.

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Naquele "monte das oliveiras" de concreto soviético, sentiu-se sozinho,ainda que não mais estivesse. Separados por poucos metros de cimento e pedras, aglomeravam-se aqueles que lhe faziam companhia, próximos à "Torre do Salvador".
O distraído García permanecera sentado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e o pensamento em Madalena, até que aos poucos sentiu a aproximação de seus visitantes.
García mal elevou os olhos,o suficiente para ver que um dos homens destacava-se do grupo e parava diante de si.
Num súbito, a chuva ressuscitou mais intensa que outrora.
Paralisado sob o temporal, aos poucos ele foi completando o quadro que tinha diante de si, olhando-o diretamente nos olhos e erguendo-se para vê-lo melhor.
A luz se desfez e os relógios, interrompidos; quebrando a hierarquia e a marcialidade ali tão veneradas.
Tudo parou para ouvir aquele que falaria, exceto a tempestade.
Sob o olhar  do séquito, o que parecera ser o líder aproximou-se e beijou a face de García,enquanto os onze demais cochichavam.
- Quero falar contigo,meu filho! disse o estranho, pousando a mão esquerda sobre o ombro do FGL.
- Eu saberia quem és em meio à multidão! O beijo na face... disse o García,em voz baixa, interrompido pelo estrondo de um trovão.
- De onde vens? ousou perguntar García.
- De rodear a Terra e passear por ela, como dizia o mestre, provocou o estranho.
Todos riram muito.
García mal podia prever o desfecho que aquele encontro guardava.

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- A ceia já está pronta, disse aquele que o beijara na face.
- Ceia? espantou-se o García.
- Sim, vamos lá, só esperávamos por ti, completou o líder, retirando-se em direção a entrada do mausoléu do velho patrono da revolução comunista. O séquito seguia seus passos debaixo de chuva, a qual não demonstrava misericórdia, nem arrependimento.
- A porta está aberta! espantou-se ainda mais o FGL.
- Claro,nós temos a chave,respondeu Pedro.
- Pedro guarda as chaves, explicou o irmão dele, enquanto a cripta abria-se e todos desciam as escadas que  levavam ao salão subterrâneo.
García ficou para trás, ainda hesitante. Aquele que os liderava voltou e tomou-o pela mão dizendo: - Vamos, meu filho! Não tardes, a mesa está posta.
Desceram em procissão, cumprindo a travessia da sala que abriga o líder embalsamado.
- Os grandes ateus comunistas tentaram ressuscitá-lo! ironizou Pedro, referindo-se ao corpo conservado de Lênin estendido sobre uma cama. E todos novamente riram muito. García, apesar do olhar assustado, riu também.
- É lá embaixo, apontou Tadeu, orientando F. García Louco para que descesse por uma pequena escada, que parecia uma passagem secreta.
A sala não era grande, mas suficiente para acomodar a mesa de treze assentos.
A mesa posta. O convidado presente.Cada um assumiu seu assento. García confuso, apenas os observava.
- Vamos brindar tua chegada! disse o anfitrião, pegando o vinho para serví-lo. Todos brindaram.
- Quem és, afinal? perguntou o García,já não suportando mais o peso da dúvida.
Todos riram muito, servindo e bebendo mais vinho.
- García,aquele que buscas nunca existiu. Eu nunca fui traído.
O Iscariotes é meu "alter ego", um heterônimo... Tu entendes bem desses assuntos, não?

Garcia olhava-o estupefato.
O nazareno o recebera e brindara a sua presença.
Judas nunca existiu. Era mais uma das mentiras do livro.
E, por incrível que pareça, até o louco García tinha caído nessa.
- Então, me responda, carpinteiro de Nazaré, o que fazes com teus "apóstolos" aqui em Moscou? perguntou García, nitidamente irritado com o engodo.
- Aqui nesta cripta nos reuníamos amiúde, durante muitos anos, nos bons tempos... 
- Ah, os bons tempos... concordou João.
- Os bons tempos... resmungaram todos,com os copos cheios de nostalgia e vinho tinto.
- Os bons tempos quando as igrejas foram fechadas e os padres corridos a tiros de espingarda, a religião era o ópio do povo, continuou o contumaz inimigo do García.
- Isso não faz sentido! rebateu o FGL.
- Sim,faz todo o sentido, retrucou o nazareno. Aqui vivíamos tranquilos, nos reuníamos à mesa nas sextas-feiras para beber e jogar pôquer, sem a perturbação desses cristãos fanáticos.
- Pôquer? 
- Sim, pôquer! Qual é o problema? Ou tu achas que nos sentávamos à mesa para a "última e santa ceia"? retrucou Pedro.
-  Para "comer, rezar e amar"? debochou Mateus, o mais exaltado.
-  Porra, García! gritou o nazareno, erguendo a taça e propondo mais um brinde.
- Porra, García... gritaram os "apóstolos" em coro.
As cartas estavam na mesa e as apostas apenas começando na chuvosa noite de sexta-feira.

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Tuesday, April 17, 2012

F.García Louco Entrevista - Judas Iscariotes - Parte III


Amsterdam já acordava para o  novo dia, quando F. García Louco enfim despertou.
Aromas de mirra envolviam o ar. Procurou Salome na memória, pois ao seu lado já não estava.
A taça de absinto e os véus sumiram. As almofadas de cetim babilônio não; antes, guardavam impressões recentes de amor e lascívia.
García se recompôs e  vestiu-se, ainda sentindo o gosto de absinto e Salome.
Preso à borda de um dos tantos espelhos do camarim, um bilhete.
"García, no deserto nem tudo que se vê é miragem. Judas te espera. Não tardes.Nem para ir, tampouco para voltar."
García descobria que a mulher era mais estonteante que o absinto.
"Nessa viagem sequer o céu me protege!", pensou em voz alta ao sair em plena manhã de sol, caminhando com o gelo a desfazer-se sob seus pés.
Encontrou Madalena em um coffee shop e mostrou-lhe o bilhete.
Entre uma tragada e outra no narguile, ela ria lendo o recado da dançarina.
"Do que estás rindo?"
Ela continuava com aquele lindo sorriso nos lábios em meio à fumaça azulada, flertando o bilhete.
"Qual é a graça?", insistiu ele.
O pequeno papiro bailava entre os dedos dela, enquanto o suspense o consumia. Silêncio.
Após uma longa tragada, ela exclamou descrente:
"Então Ele quer te ver? Estranho...
"Por quê?" interrompeu-a.
 "Ele nunca quis falar com ninguém. Não fala sequer com os amigos mais íntimos. Agora quer conceder entrevista para ti." completou.
"Madalena, onde ele está? Acaso podes me ajudar?
"Depende..." respondeu rindo com ares de malícia.
"Fechado, como quiseres!" concordou ele, sem hesitação.
"Fechado? Retorna no trem que te trouxe." disse ela, passando-lhe o narguile.

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O louco García deixava Amsterdam.
No retorno ao Oriente dos exílios, não levava na bagagem a entrevista com Salome, mas uma dívida com Madalena.
Assim, embarcou na mais longa e esperada das viagens.
O trem agora o levava em busca do "santo graal": a entrevista com Judas.
Madalena prometera mandar notícias, a um preço ainda incerto,mas isso era outra história.
Diferente de outras vezes, não conseguiu dormir, mesmo na confortável cabine da primeira classe,cortesia de Madalena e das altas doses de láudano, presente de Salome.
Passaram-se três longos dias de viagem insone. A imaginação borbulhava, enquanto amanhecia novamente e o trem parou.
Guardas da fronteira entraram.
García olhou pela janela e vislumbrou a paisagem cinza recoberta de neve. Ao longe o contraste dourado das cúpulas de uma igreja ortodoxa. "Malditos cristãos russos", resmungou baixo.
"O que veio fazer em Sankt Peterburg?" perguntou em idioma local o guarda, com a peculiar "hospitalidade russa".
"Entrevistar Judas Iscariotes" respondeu García,com nítido sarcasmo, em russo fluente, para não causar polêmica.
Os guardas riram muito, demonstrando um humor nada peculiar para uma autoridade russa. Checaram-lhe o passaporte e saíram ainda rindo-se da suposta piada do estrangeiro.
García gostava muito de Saint Petersburg. Ele  gostava de passear pelos canais e lembrar que fora ali que as igrejas foram fechadas e os malditos padres corridos a tiros de  espingarda...
Pena que os "comunistas" criaram outros "ídolos" para substituir os antigos.

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As longas caminhadas diárias às margens do rio Neva até o Fontanka serviam-lhe para refazer inúmeras anotações sobre a planejada entrevista.Depois retornava ao hotel e ficava à espera de algum sinal de Madalena. Nada. Passaram-se semanas.
Fosse menos experiente e a conhecesse ainda menos, teria capitulado.
Entre as horas de espera, muitas garrafas de vodka. Espaço havia.

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"O sentimento de traição seria demasiado "cristão" para quem se propõe entrevistar o Iscariotes", pensava ele, enquanto fumava na escuridão do quarto.
E Madalena queria colocá-lo à prova.
Passavam-se então quarenta dias no seu "deserto báltico", onde fora tentado por todos os demônios, cedeu a todos, sucumbindo às tentações e prazeres...  Quando, enfim, foi chamado à recepção do hotel.Alguém o aguardava.
Saltou da cama e desceu rapidamente pela velha escadaria até o térreo. Somente um pequeno pacote jazia sobre o balcão, mas quem o deixara já não estava lá.
O porteiro contou que era uma mulher. Não disse o nome.
Entrou perguntando se ele ainda estava hospedado ali.
Depois disse que não poderia esperar muito tempo, apenas deixou o embrulho e saiu rapidamente, despedindo-se com um belo sorriso.
"Mas ela não se identificou?" ansioso interrogava.
"Niet, niet", disse repetidamente o funcionário, sem muito interesse em ajudar.
García pegou a encomenda e retornou ao quarto, desfazendo-se do embrulho enquanto subia a escada. "Uma matrioshka... Uma boneca russa", constatou com ar de surpresa.
Sentado na cama, dividindo espaço com anotações, abriu uma a uma as bonequinhas ocas. Dentro da menor delas, um bilhete.
"Espero por ti na praça. Saberás quem sou em meio à multidão!"